Hora Peninsular

Crise

Posted by José em 26/10/2017

A permanência da crise – característica principal da modernidade – é a forma de estabilizar as infinitas maneiras que todas as coisas poderiam ser. As crises duram enquanto as coisas ainda podem ser de outra maneira; as crises terminam quando as coisas são o que são.

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Conceitos, nomes próprios e verbo

Posted by José em 26/10/2017

Os conceitos são palavras que se usam para falar de coisas comuns; opostos aos conceitos são os nomes próprios que se empregam quando se fala de coisas únicas. O verbo é a posição relacional de todas as palavras.

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Tipos de fantasia

Posted by José em 16/10/2017

(Fóios, Sabugal, 2017)

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Olhar longe e respirar fundo

Posted by José em 16/10/2017

(nascente do Rio Côa, Serra de Mesas, 2017)

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Luzes

Posted by José em 16/10/2017

A luz pode medir o tempo com sombras – para isso servem os relógios de sol – ou ser a própria passagem do tempo – não só porque o nega, sob a forma de in(tempérie) – quando as sombras se transformam em queimaduras. As feridas feitas pela luz são mais erosivas – minerais – do que cinzas – derivados de matérias consumíveis. Deixam um rasto branco, próprio das superfícies que se apagam. As tempestades solares queimam os sinais de rádio. Ao contrário dos furacões, os ventos astrais não têm uma escala Saffir-Simpson. De zero a cinco são 300.000 quilómetros por segundo. A luz faz esquecer quando atinge o limite máximo da sua velocidade. Ao esquecimento devia chamar-se viajar no tempo.

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Solarização

Posted by José em 07/10/2017

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Columbário

Posted by José em 07/10/2017

(Altura, 2017)

A palavra columbário pode chegar a ter dois significados: o primeiro, de edifício provido de numerosos nichos onde se conservam as cinzas dos cadáveres humanos incinerados; o segundo, de pombal.

A última morada é também uma casa, tipologia à qual já não obedece um pombal, porque não há nenhum habitante que seja capaz de voar mesmo tendo um tapete persa na sala.

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Entre social e público

Posted by José em 07/10/2017

A necessidade de organização política surge quando as consequências das relações de intimidade, vizinhança e consanguinidade afectam a elementos que não são íntimos, vizinhos ou consanguíneos. As relações directas não são politicas; não assim as consequências indirectas que essas relações possam ter sobre quem nelas não participa.

As redes sociais desenvolveram um atributo que multiplica o equivoco de igualar o público ao social. Mas a publicidade da vida intima, a publicação da opinião pessoal sobre aquele ou qualquer assunto, não transforma a mais radical subjectividade num assunto social; o eu kantiano que se reflecte em cada selfie não contribui para o bem-estar da comunidade.

A partir do momento em que, para alivio de muitos, à propriedade privada se lhe deixou de considerar anti-social, alargou-se a ideia, até se converter num lugar comum, que a publicação da privacidade é o cúmulo da sociabilidade, o puro âmbito do social. A tramóia tem um desenvolvimento tão lógico que entronca em duas relações unívocas: dado que o privado é o oposto do público, qualquer revelação da privacidade é, por exclusão de partes, um acto público; e, no mesmo sentido, a única acção capaz de identificar-se primária e definitivamente com a utilidade social é uma que seja pública. As redes sociais – que, nesta ordem de ideias, também podiam ser as de distribuição de energia eléctrica, água potável ou saneamento – magnificam a percepção de que as controvérsias privadas de certas criaturas são mais sociais do que muitos problemas públicos.

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John Hejduk

Posted by José em 04/10/2017

(Aveiro, 2017)

Para não acabar um edifício é necessário utilizar a escavação arqueológica como técnica construtiva. Um edifício que não chegou ao fim aparece virado do avesso, o que já é muito, um centímetro para além do fóssil um centímetro para cá do monumento.

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Está tudo bem

Posted by José em 03/10/2017

O primeiro parágrafo do artigo primeiro da Constituição espanhola diz “Espanha constitui-se num Estado social e democrático de Direito”, pelo que, ao empregar o nada despiciendo verbo constituir em vez do óbvio verbo ser, Espanha não é. Até aqui nenhum problema; o Estado, como pessoa artificial, não tem remordimentos ontológicos. O busílis aumenta, no entanto, quando por deixar de constituir-se, deixa de ser. Neste momento, Espanha é em-si-mesma, um ensimesmamento, o que configura uma negação da sua própria Constituição. Espanha encontra-se, portanto, num estado inconstitucional.

Perguntava algures Maria Zambrano numa das conferências que pronunciou nos seus anos de exílio no México, posteriormente reunidas sob o título “Pensamiento y poesía en la vida española”, se se pode fundar no sangue a unidade, a continuidade da vida de um povo? Referia-se ao sangue que encerra e retém a vontade de um espanhol, mesmo nos momentos de maior desídia e desgana. Prosseguia. Se já é uma questão grave que um povo possa conservar-se no estoicismo – a vontade estoica junto com a vontade católica são as duas atitudes fundamentais do querer espanhol – não o é menos que um povo possa permanecer unido somente pela força do sangue. O remate é definitivo: “O que está em crise já no século XIX é, nada mais nada menos, a própria existência de Espanha”.

O problema dura até hoje, e é precisamente esse medo de não ser – sempre tão iminente na possibilidade de quebrar-se – a principal força de unidade. A unidade de Espanha não é uma mania das grandezas, mas um pânico tão assombroso à solidão que a única forma de permanecer juntos é enfiar-se todos num cubículo bafiento e às escuras. Zambrano refere-se a isso quando afirma que a vida espanhola, ao regressar dos seus inumeráveis caminhos – a volta das américas – fica quieta, afogando-se, sem horizontes, tiranizada pelo doméstico. A vida espanhola faz-se tremendamente trágica.

Argumentava Norberto Bobbio na “Teoria do Ordenamento Jurídico” que o facto de o Direito não coincidir com a Justiça, apesar de autorizar aqueles que detêm o Poder a exercer a força, não pressupõe que o uso da força seja justo só porque o Poder o quis. O Direito é a expressão dos mais fortes, não dos mais justos. Tanto melhor se, depois, os mais fortes são também os mais justos.

Para Bobbio, o objetivo de todo legislador não é organizar a força, mas organizar a sociedade mediante a força. A força é um instrumento para a realização do Direito. Mas a coisa tem as suas nuances: o uso da força serve para exercer o poder, não para justificá-lo. A partir de amanhã, assistir-se-á, com uma magnificência inaudita, à justificação do poder pela força. Não sei se pode chamar a isso democracia. Mas com toda a sinceridade, isso não é coisa que interesse a ninguém.

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