Hora Peninsular

Arquivos para a Categoria ‘O Novo Romantismo’

Europa

Publicado por José em 30/03/2010

A Europa está cheia de cansaço, cepticismo e desconcerto. Dizem que a alma não pode viver sem uma religião. Nós, filhos do século mais científico e mecanizado, talvez tenhamos extirpado todo o tipo de mitos e simbolismos; mas não podemos viver só para isto, para isto tão breve, tão pessoal, tão egoísta e tão efémero. Necessitamos viver para o mais além. Não para o mais além do mundo, dado que não é possível acreditar numa terra por detrás das estrelas, mas para o mais além do tempo. Quer dizer: necessitamos viver para a história, para as gerações vindouras. Os melhores espíritos da nossa época preconizam, para se encarregarem desta responsabilidade histórica, uma austeridade e misticismo exemplares.

José Díaz Fernández in A literatura de avançada, quarto capítulo de O Novo Romantismo.

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A forma

Publicado por José em 06/03/2010

Segundo Platão, as formas puras seriam cinco: o tetraedro, o cubo, o octaedro, o dodecaedro e o icosaedro. Todas eram sólidos. Tinham tacto e peso. Eram angulosas. Podiam abrir o cenho ao próximo. Mas apenas lhe abriram a cabeça. Daí a forma ser coisa mental. Polida como os quilates de um diamante em vez de ser trabalhada com os calos de uma manápula.

Sem forma tudo seria líquido e fluído. Por isso a forma é dar caudal à água de um rio. Mas a forma deveria ser um vapor, uma mistura de água e fogo. Teria apenas interior, isto é, seria consumida pela carcoma. A forma transforma a poesia em técnica. E a técnica é traçar um quadrado sobre um pedaço de terra. Que se vai transformando em icosaedro. Se o mundo tivesse sentido, isto é, futuro, as formas artísticas deveriam anunciar as reformas sociais. Apenas a isto se poderia chamar, verdadeiramente, futurismo.

(publicação da tradução do terceiro capítulo A literatura antes e depois da guerra de O Novo Romantismo de José Díaz Fernández)

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Um romântico

Publicado por José em 19/01/2010

Um romântico, no lugar de tomates, tem muito coração. A isto chama-se também ter amor e coragem. O coração, sendo um músculo, necessita ser tonificado. Por isso, um romântico utiliza o amor para fazer musculação. Daí haver quem diga: o amor é a mais eficaz de todas as morais.

Um romântico usa o amor para agir. Por isso, uma história romântica, mais do que um drama, sempre descambará num filme de acção ou numa novela de faca e alguidar. Tratando-se de porrada, o coração é o seu mais resistente colete à prova de bala.

Um romântico diz: “É preciso ir mais além”. E isto, ademais de não encerrar nenhuma atitude, por assim dizer, competitiva, tão-pouco quer dizer que o mais além seja sítio muito longínquo. Está, aliás, mesmo ali ao virar da esquina. “Só mais um bocadinho e chego lá”, diz o romântico. E esse bocadinho que falta é, precisamente, o mais além. Que é algo muito parecido com dar o primeiro passo. Como seja publicar a tradução muito cá de casa do segundo capítulo Século XIX e Romantismo de O Novo Romantismo de José Díaz Fernández.

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Um homem do seu tempo

Publicado por José em 13/01/2010

Iniciamos com este post a publicação por capítulos do ensaio O Novo Romantismo –Polémica de Arte, Política e Literatura de José Díaz Fernández.

José Díaz Fernández foi um homem do seu tempo. Nasceu em 1898, ano em que Espanha perdeu tudo, Cuba, Porto Rico, Filipinas e um Império, e morreu em 1941, o ano em que a Segunda Guerra Mundial entrava na União Soviética.

Assistiu aos últimos movimentos do colonialismo espanhol como expedicionário do Regimento de Infantaria de Tarragona em Marrocos. Assistiu ao fim da República como deputado e chefe de imprensa da Acção Republicana em Barcelona. Antes, em 1931, ao ser eleito deputado pelo Partido Radical-Socialista, abandona a literatura. Depois, apenas escreveria Octubre Rojo en Asturias. Em 1930 terminava O Novo Romantismo.

Sobre este primeiro fascículo, intitulado, muito sugestivamente, A Moda e o Feminismo, Díaz Fernández sustenta que a política teve e tem muito pouco que ver com a emancipação da mulher. Daí a sua crítica ao feminismo e sufragismo.

1. A Moda e o Feminismo

Sobre isto, uma consideração introdutória amparada em dois factos actuais. Consideração: o machismo é o pior lado do feminismo. Primeiro facto: no princípio de Dezembro de 2009 celebraram-se em Granada as trigésimas Jornadas Feministas Estatais coordenadas pela Federação de Organizações Feministas do Estado Espanhol. Particularidade: proibida a participação de homens. Segundo facto: a direita tabernária espanhola, aquela que mistura a testosterona com o sangue de Cristo transmutado em vaticanesco vinho, converteu em assunto político as calças, o penteado e a maquilhagem da Ministra da Defesa de Espanha, Carme Chacón, na chamada Páscoa Militar, o discurso do Rei às tropas celebrado, com muita propriedade, no dia de Reis. O protocolo da Casa Real recomendava vestido longo para as senhoras, e a ministra, que no ano anterior tinha vestido smoking, este ano vestiu calças.

O Novo Romantismo, como o próprio nome indica, é uma obra demasiado datada, quanto mais não seja porque o seu autor foi um homem do seu tempo. Citando um soneto do próprio, Díaz Fernández tem muito de herói, tem muito de asceta/ como um clássico e nobre cavaleiro espanhol. Um homem íntegro. Mas, antes disso, um humanista. E não há nada pior do que um humanista desarmado: acaba, invariavelmente, por ser vítima da humanidade.

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