Vai uma pessoa tranquilamente pela rua, com a marmita na mão, a caminho do trabalho, ensimesmado nas suas fermentações cognitivas, do tipo, quantos dias faltam para o fim-de-semana?, será que o mourinho vai jogar com o trivote no meio-campo?, quando, de repente, levantando os olhos para a realidade sangrante, se depara com Calíope (musa da poesia épica), Melpómene (musa da tragédia), Polimnia (musa da música sacra) e Tália (musa da comédia).
Uma pessoa, acreditando piamente que a arquitectura, em vez de significado, tem lógica, que a forma arquitectónica já não é metafórica, mas tecnológica, uma pessoa, dizia, confiando nestas máximas e anexins, contempla, estarrecido, aquelas 4 filhas de Zeus, coisa que, pelo menos desde as cariátides, não engalanava nenhum prédio. Aquele que vos escreve, conhecedor das crepitações brônquicas do classicismo, pôs-se a confabular onde paravam as outras cinco, sabendo que, desde Homero, as musas, como a prova aritmética, eram nove. Assim, com a marmita crepitando na mão, decide adentrar-se no assunto e, contornando o edifício, dá de esquina, em fabuloso êxtase oftálmico, com
Erato
a musa da poesia lírica. Ali estava, finalmente, um prédio onde ao logos se tinha contraposto o mythos, esse logos que na mesma fachada estava representado pela inscrição Knight Frank, consultores internacionais de propriedade imobiliária, nada mais nada menos do que a culminação da crise em que o logos meteu a arquitectura há 200 anos. Aquelas 5 mulheres, ou melhor, aquelas 5 musas, bem nutridas de formas e folheando literaturas, ao introduzirem mistério, isto é, ao obrigarem a fazer perguntas, faziam também da nossa falta de respostas o significado do conjunto. Aquelas 5 musas restauravam a dimensão metafísica da arquitectura. Porque o significado arquitectónico nunca dependeu da razão ou do racionalismo, mas sim do símbolo, aquilo que torna visível o invisível, que expressa o inexpressivo. O problema é que a arquitectura se converteu numa mera construção prosaica, quando toda a gente sabe que os mistérios apenas se resolvem, não descobrindo a verdade, mas desentranhando a metáfora.









