Hora Peninsular

Arquivos para a Categoria ‘Coisas de significado e significante’

Calíope, Melpómene, Polimnia e Tália

Publicado por José em 25/04/2012

Vai uma pessoa tranquilamente pela rua, com a marmita na mão, a caminho do trabalho, ensimesmado nas suas fermentações cognitivas, do tipo, quantos dias faltam para o fim-de-semana?, será que o mourinho vai jogar com o trivote no meio-campo?, quando, de repente, levantando os olhos para a realidade sangrante, se depara com Calíope (musa da poesia épica), Melpómene (musa da tragédia), Polimnia (musa da música sacra) e Tália (musa da comédia).

Uma pessoa, acreditando piamente que a arquitectura, em vez de significado, tem lógica, que a forma arquitectónica já não é metafórica, mas tecnológica, uma pessoa, dizia, confiando nestas máximas e anexins, contempla, estarrecido, aquelas 4 filhas de Zeus, coisa que, pelo menos desde as cariátides, não engalanava nenhum prédio. Aquele que vos escreve, conhecedor das crepitações brônquicas do classicismo, pôs-se a confabular onde paravam as outras cinco, sabendo que, desde Homero, as musas, como a prova aritmética, eram nove. Assim, com a marmita crepitando na mão, decide adentrar-se no assunto e,  contornando o edifício, dá de esquina, em fabuloso êxtase oftálmico, com

Erato

a musa da poesia lírica. Ali estava, finalmente, um prédio onde ao logos se tinha contraposto o mythos, esse logos que na mesma fachada estava representado pela inscrição Knight Frank, consultores internacionais de propriedade imobiliária, nada mais nada menos do que a culminação da crise em que o logos meteu a arquitectura há 200 anos. Aquelas 5 mulheres, ou melhor, aquelas 5 musas, bem nutridas de formas e folheando literaturas, ao introduzirem mistério, isto é, ao obrigarem a fazer perguntas, faziam também da nossa falta de respostas o significado do conjunto. Aquelas 5 musas restauravam a dimensão metafísica da arquitectura. Porque o significado arquitectónico nunca dependeu da razão ou do racionalismo, mas sim do símbolo, aquilo que torna visível o invisível, que expressa o inexpressivo. O problema é que a arquitectura se converteu numa mera construção prosaica, quando toda a gente sabe que os mistérios apenas se resolvem, não descobrindo a verdade, mas desentranhando a metáfora.

 

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Marinheiro pintando um pássaro na proa de um navio

Publicado por José em 04/04/2012

Para além do significado comummente estabelecido para derrota (perda de uma batalha, de uma guerra, de um jogo, de um negócio), existe um outro, próprio da linguagem marítima, que quer dizer caminho de um navio, que o leva de um ponto a outro. Gosto desta ideia.

Gosto de pensar que uma vitória é a total ausência de um caminho.

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Espelhismo

Publicado por José em 29/03/2012

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Uma situação económica

Publicado por José em 25/03/2012

Até há cinco anos atrás vivíamos uma situação que poderíamos chamar de não-económica, isto é, um estado de abundância onde havia dinheiro para quase todos. Até há cinco anos atrás, vivíamos uma situação utilitarista sintetizada na seguinte doutrina: havia que procurar a maior felicidade do maior número. Ou seja, apenas seria bom aquilo que fosse útil para a maioria. A distribuição igualitária do bem-estar estava, teoricamente, garantida para todos. Ou para a maioria desses todos.

No entanto, de há cinco anos para cá, assistimos ao fracasso da sociedade utilitarista, também conhecida por sociedade de bem-estar, e à sua substituição por uma sociedade económica. Do ponto de vista da sua definição formal, a economia apenas se pode entender em termos de escassez. Daqui deriva a acepção de económico, que quer dizer barato, ou de economizar, que significa poupar. Assim, uma situação económica é uma situação caracterizada pela escassez, onde não há para todos, ao contrário de uma situação utilitarista, onde havia para a maioria. Por isso, o estado de escassez onde agora nos encontramos equivale à instauração de um estado formalmente económico.

A escassez não é o resultado de uma insuficiência de meios. No entanto, austeridade é um eufemismo socialmente aceite, vinculado a uma vaga noção de estoicismo senequista, um sistema filosófico, aliás, bastante característico da Península, para denominar escassez, termo que, no imaginário popular, não quer dizer outra coisa senão passar fome. A grande perversidade do racionalismo económico é associar a necessidade de imposição de uma situação de escassez a uma hipotética insuficiência de meios. A economia assenta nessa ilusão: confundir escassez com insuficiência. No entanto, se os meios são insuficientes, o que haveria de fazer seria abdicar dos fins que aqueles meios pretendiam atingir. Abdicar dos fins não é o mesmo que ser pobre. Apenas quer dizer que não se é infinito. O problema é que a infinitude cada vez se confunde mais com ser rico. Daí que um pobre seja aquele que sabe muito bem quais são os seus limites. Por outras palavras: um rico quer sempre mais, enquanto que um pobre se contenta com pouco. A escassez é, no fundo, o desenvolvimento desse lugar comum que nos diz que os meios são insuficientes. Mas se os meios são insuficientes, isso apenas quer dizer que os fins são demasiado longínquos.

O racionalismo económico diz-nos que há que adequar os meios aos fins. No entanto, uma das características desse mesmo racionalismo é a transformação de tudo em fins, a começar pelos próprios meios. Dir-se-ia que, ao pretender impor fins às coisas, o que de facto se pretende é acabar com tudo. E este acabar com tudo é o que, contraditoriamente, sustenta o sistema de pensamento económico que defende o crescimento infinito. Assim, apenas existe economia quando os meios se sobrepõem aos fins, quando os meios se convertem em fins. Exemplo disto é a transformação da natureza em meio …. ambiente.

Da mesma forma que a lei da oferta e da procura nos faz oscilar entre o medo à fome e o desejo de lucro, também as formas económicas variam entre a escassez (quando os meios são insuficientes para atingir os fins) e a abundância (quando os meios atingem os fins). Voltando à vaca fria: a insuficiência de meios tão-só implica a impossibilidade de atingir determinados fins. A isto, não se pode chamar, em nenhum caso, escassez. Porque há outros fins.

No entanto, este estado de escassez é utilizado pelo poder para confundir a imposição de deveres com a supressão de direitos, equiparando-os a regalias e privilégios, ignorando essa premissa fundamental que regula a sociedade, pelo menos desde a Revolução Francesa: os direitos são indispensáveis para que o pessoal seja livre. Estamos, assim, em presença de uma crise que afecta ao maior número, violentamente reflectida na denominada crise da democracia, por coincidência, o sistema que, dizem, apenas funciona mediante a formação de maiorias.

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Gosto muito de futebol

Publicado por José em 15/03/2012

Desde que llegó a Bilbao, Marcelo Bielsa se ha mostrado como una persona reservada, pero extremadamemnte educada con los aficionados que se le acercan a fotografiarse con él o a pedirle un autógrafo. Lo hace habitualmente tras los entrenamientos y también en su tiempo libre. Está ya extendida la anécdota que sucedió en La Arboleda, a donde acudió de paseo, cuando unos niños se le acercaron con los álbumes de cromos del Athletic. Se los recogió, y les emplazó a verse en el mismo lugar al día siguiente. El entrenador del Athletic acudió puntual, con los álbumes firmados por todos los jugadores y un par de entradas en cada álbum.

Ayer, esa amabilidad con los aficionados llegó al extremo. El twitter oficial del Athletic incluyó una llamada de “socorro” del técnico argentino que dirige al conjunto rojiblanco y que cada día parece más identificado con el club. El tuit dice textualmente: “Bielsa desea localizar persona a la que no pudo atender antes de la sesión del 13 marzo, y la emplaza al término del próximo entrenamiento”

(El Mundo, 15/03/12)

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Liberdade de escolha

Publicado por José em 15/03/2012

Diz-se para aí que somos livres na medida em que escolhemos. Ou seja, que ser livre consiste em escolher livremente. Corolário deste procedimento é a denominada lei da oferta e da procura. A criação de ofertas assenta em dois preconceitos básicos: primeiro, as ofertas são um reflexo da sociedade, correspondendo ao melhorzinho da dita, depois de todos os seus elementos terem sido submetidos a um exigente processo de darwinismo social (isto é o que acontece nos chamados processos eleitorais); segundo, as ofertas reflectem as nossas necessidades e desejos elementares, decalcando com inusitado rigor a nossa natureza mais profunda (isto é o que acontece com as decisões mais importantes da nossa vida). O resultado de tudo isto é a existência de um vínculo muito estreito entre as estruturas da oferta e as estruturas sociais, sendo aquelas o fiel reflexo destas e vice-versa.

A oferta é aquilo que racionaliza as nossas escolhas. Por isso se diz que todas as nossas escolhas são racionais. No fundo, apenas procuramos aquilo que nos dão. A isto chama-se controlo. Ou, dito de outra forma, a oferta é o mecanismo utilizado pelo poder para nos dar, precisamente, a liberdade. Daí que, quando escolhemos, longe de estarmos a ser livres, estamos a oferecer a nossa liberdade ao poder. Parece que desejamos, mas. no fundo, o que estamos a fazer quando escolhemos livremente não é outra coisa senão obedecer. Assim. já não é necessário um Leviatã, um ser Todo-Poderoso que nos controle. Nós mesmos nos encarregamos de vigiar-nos mutuamente. O poder já não necessita de impor as suas preferências; nós mesmos nos submetemos através das nossas escolhas.

A omnipotência, que era a propriedade da transcendência, com o desaparecimento ou morte de Deus, alojou-se no sujeito, isto é, passou a ser uma característica da subjectividade. Por sua vez, o desaparecimento da divindade coincidiu, no tempo, com a substituição do absolutismo pelo liberalismo como sistema político de governação da sociedade. Se já não era aceitável a figura do Todo-Poderoso, o poder absoluto do soberano devia ser ocultado. Foi assim que nasceu o liberalismo. Aliás, foi assim que o liberalismo conquistou o poder absoluto: oferecendo-nos a liberdade. O liberalismo não só nasce do absolutismo, como, principalmente, nasce para ocultá-lo. E é precisamente o liberalismo o sistema utilizado pela política contemporânea para disfarçar o seu poder absoluto. Fá-lo, oferecendo-nos o poder de escolha. Que, na sua essência, é uma liberdade.

Repito-me. Tão-só somos livres porque o liberalismo nos deu a liberdade. Mas uma sociedade apenas é livre quando o preso liberta o carcereiro, não quando o carcereiro põe o preso em liberdade. Nos termos da lei da oferta e da procura seria mais ou menos assim: a nossa procura somente encontra a oferta, quando devia ser, precisamente, a procura a oferecer aquilo que não encontramos.

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Camuflagem

Publicado por José em 15/03/2012

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Planeamento e pensamento

Publicado por José em 08/03/2012

A cidade é o resultado de um processo de racionalização. E por racionalização entende-se a apropriação do cogito cartesiano pelo taylorismo e o fordismo. Quer dizer, a metafísica cartesiana foi o sistema filosófico utilizado pelos detentores do capital para iniciar e desenvolver o processo de industrialização. E, subsequentemente, o processo de crescimento urbano.

O cogito, aquele cogito ergo sum (que em cristão corrente quer dizer penso, logo existo) seria entendido como uma característica individual, íntima e particular dos sujeitos, enquanto que a razão seria um atributo colectivo, mais concretamente, seria a apropriação social do pensamento. O desenvolvimento e aperfeiçoamento da razão daria lugar aos processos de racionalização (por exemplo, o positivismo) tão característicos de finais do século XIX e princípios do século XX. A consumação destes processos seria a substituição da filosofia (pensamento) pela economia (razão) como sistema de leitura e interpretação da realidade. Além disso, os mesmíssimos processos de racionalização infundiriam a ideia maligna de que a razão, sob a forma da organização, optimização, rentabilização, maximização e planificação, seria a única maneira que os indivíduos teriam de pensar. Desta forma, o processo de racionalismo económico consuma-se com a atribuição de razão à subjectividade. A prová-lo está o emprego reiterado da expressão eu tenho razão, exemplo perfeito de uma determinada maneira, não de raciocinar, mas de racionalizar.

O racionalismo é o lado mais prático do pensamento. Com a razão constrói-se monumentos, algo compreendido entre muralhas e avenidas. Já o pensamento serve para fazer coisas mais pequenas que, a maior parte das vezes, acabam em becos sem saída. Onde a razão constrói aforismos, o pensamento cria aporias. Por isso, o racionalismo, para se materializar, necessita, quanto muito, de uma escavadora, enquanto que um raciocínio, para que se concretize, precisa, pelo menos, alguém que pense. As cidades até podem ser racionalistas, mas carecem de pensamento. São planeadas, até pode ser, mas não há ninguém que as pense.

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Arranha-céus gastrópode

Publicado por José em 03/12/2011

(espécimen seccionado da Terebra Maculata Linné)

Uma casa pode estar debaixo da terra e chamar-se bunker. Pode estar sobre as águas e chamar-se palafita. Pode estar dentro de água e chamar-se búzio. Mas uma casa não é uma concha. Porque uma concha é vida, vida não artificial, quer dizer, natureza, enquanto que uma casa é vida artificial, isto é, artifício, engenho.

Há casas feitas de solo, como as urbanizações modernas, e casas feitas de terra, como aquelas no deserto. Há casas feitas à mão e casas feitas à máquina, casas que têm superfície e casas que têm espaço. As casas superficiais, para serem tridimensionais, necessitam ser decoradas. Daí que o jarrão chinês seja o elemento que lhes atribui verdadeiro espaço. As casas superficiais, que são feitas de círculos e rectas, não têm tempo. São casas que andam às voltas ou de trás para a frente como a rotina que levam dentro. São casas lineares, previsíveis, repetidas e repetitivas. São casas industriais, como a máquina a vapor ou o caminho de ferro. Apesar de não terem tempo, são casas feitas à pressa.

A progressão contínua e linear dos acontecimentos é algo que apenas acontece no plano, nunca no espaço. No plano tudo está planeado, ao passo que no espaço tudo acontece por acaso. Daí que nas casas que têm espaço tudo aconteça ao mesmo tempo. Habitá-las é, ao fim e ao cabo, escolher um dos vários tempos que estão sempre a acontecer. As casas espaciais são sempre verticais, apesar de não serem arranha-céus. São casas que se desenvolvem em hélice. E sabe-se que a hélice é o resultado do cruzamento de duas figuras planas: o círculo e a recta

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A fachada da cidade

Publicado por José em 11/11/2011

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