A força mais poderosa que oprime um trabalhador é a sua própria força de trabalho. Nas sociedades contemporâneas a distribuição da riqueza realiza-se através da compra e da venda. Daí que a única lei vigente neste tipo de sociedades seja a lei da oferta e da procura, lei que, curiosamente, não foi submetida à votação de nenhum parlamento. Uma lei que explica também as elevadas taxas de desemprego: a força de trabalho é o único produto que um trabalhador tem para vender.
Uma das variáveis mais importantes na composição económica de uma casa, para além da relação flutuante entre a oferta e a procura num momento determinado, é o valor do solo sobre o qual aquela se põe de pé. O que é verdadeiramente objecto de aquisição na transmissão económica de uma casa é o terreno, e não a edificação, produto arquitectónico que não é eterno, que se torna inabitável com o tempo e que, por isso, vai perdendo todo o seu preço.
Antes de pretender um tecto, aquilo que deseja quem compra uma casa é um chão. Através da propriedade de uma casa, o habitante regressa a formas próprias das sociedades agrícolas pré-industriais. A casa é a forma de o operário continuar preso a uma parcela de terra. Este era o sonho da social-democracia proudhoniana que agora atravessa um mau momento: uma sociedade que se transformasse num conjunto de proprietários de casas, que assim seriam livres e independentes.
Segundo Engels, a expulsão do operário da sua casa e do seu lar, tal como teve lugar na Inglaterra do séc. XVIII, foi a primeiríssima condição da sua emancipação espiritual. Daí a evidência: a casa, seja um T-1 ou um chalé, ainda não superou o estado primogénito da cabana e da caverna. O mesmo para quem vive dentro. Comprar uma casa não transforma o habitante em proprietário, antes converte-o num animal doméstico.


