Hora Peninsular

O falcão das Torres Brancas

Publicado por Zé em 26/01/2012

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Arranha-céus gastrópode

Publicado por Zé em 03/12/2011

(espécimen seccionado da Terebra Maculata Linné)

Uma casa pode estar debaixo da terra e chamar-se bunker. Pode estar sobre as águas e chamar-se palafita. Pode estar dentro de água e chamar-se búzio. Mas uma casa não é uma concha. Porque uma concha é vida, vida não artificial, quer dizer, natureza, enquanto que uma casa é vida artificial, isto é, artifício, engenho.

Há casas feitas de solo, como as urbanizações modernas, e casas feitas de terra, como aquelas no deserto. Há casas feitas à mão e casas feitas à máquina, casas que têm superfície e casas que têm espaço. As casas superficiais, para serem tridimensionais, necessitam ser decoradas. Daí que o jarrão chinês seja o elemento que lhes atribui verdadeiro espaço. As casas superficiais, que são feitas de círculos e rectas, não têm tempo. São casas que andam às voltas ou de trás para a frente como a rotina que levam dentro. São casas lineares, previsíveis, repetidas e repetitivas. São casas industriais, como a máquina a vapor ou o caminho de ferro. Apesar de não terem tempo, são casas feitas à pressa.

A progressão contínua e linear dos acontecimentos é algo que apenas acontece no plano, nunca no espaço. No plano tudo está planeado, ao passo que no espaço tudo acontece por acaso. Daí que nas casas que têm espaço tudo aconteça ao mesmo tempo. Habitá-las é, ao fim e ao cabo, escolher um dos vários tempos que estão sempre a acontecer. As casas espaciais são sempre verticais, apesar de não serem arranha-céus. São casas que se desenvolvem em hélice. E sabe-se que a hélice é o resultado do cruzamento de duas figuras planas: o círculo e a recta

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Isto não é a crise da dívida dos países periféricos; isto é a crise da poupança alemã.

Publicado por Zé em 27/11/2011

Então é o seguinte:

A dívida total alemã, segundo os últimos gráficos consultados na internet por aquele que escreve, é de 176% do Produto Interno Bruto. Este tipo de dívida é o resultado da soma da dívida pública com a dívida privada. Ora, segundo aqueles mesmos gráficos consultados na internet, a dívida pública alemã é de 83% do PIB, o que, aplicando-lhe um tratamento silogístico, concluir-se-ia que a dívida privada alemã é de 93% do PIB, isto é, 10% superior à sua dívida pública.

Para não perdermos as estribeiras numéricas, convém recordar que a dívida total da República Portuguesa é de 251% do PIB, da qual, 106% se corresponde a dívida pública e os restantes 145% a dívida privada. Isto é, a dívida privada portuguesa seria 40% superior à nossa dívida pública.

Em qualquer caso, o exemplo culminante é o do Reino de Espanha. Não só a sua dívida pública é de 67% do PIB, isto é, inferior à alemã e uma das mais baixas da zona euro, como a sua dívida privada é de 217% do PIB, ou seja, muito superior à dívida total alemã e um bocadinho menos do que a dívida total portuguesa. Estes números querem dizer, genericamente, três coisas:

  • Todos os países têm uma dívida privada superior à dívida pública.
  • Isto significa que o pessoal, isto é, o povo, as empresas e os bancos, necessitam de muito mais dinheiro para as suas coisinhas do que o Estado para a Saúde, a Educação e a Justiça.
  • Isto põe em evidência que o que chupa mais dinheiro não é o Estado de bem estar, mas uma sociedade de consumo.

Mas não era precisamente aqui que queria chegar. Continuando com a mesma análise algorítmica, tira-se pela pinta que a Alemanha é o país com a dívida privada mais baixa de entre todos os seus vizinhos. Não é preciso saber muito de economia (coisa que nem os economistas sabem), para se concluir que uns níveis baixos de dívida privada supõem uns níveis elevados de poupança. Numa circunstância como esta a pergunta chave é: onde pára a dívida alemã? A resposta mais lógica seria: nos bancos alemães. E o que fizeram os bancos alemães com essa poupança? Investiram-na na compra de dívida grega, irlandesa, portuguesa, espanhola, italiana e por aí além. Mas não o fizeram por um altruísmo europeísta, ou uma luterana compaixão pela nossa baixa condição de estoira-vergas. Não. Tão-só o fizeram porque a dívida daqueles países oferecia elevadas e, ao mesmo tempo, seguras, rendibilidades. Só assim se justifica que os mui cartesianos, racionais e responsáveis bancos alemães tenham investido em dívida grega a módica quantia de 16 mil milhões de euros, em dívida irlandesa 82 mil milhões de euros, em dívida italiana 120 mil milhões de euros, em dívida espanhola 131 mil milhões de euros e em dívida portuguesa pouco mais de 26 mil milhões de euros. A poupança alemã extravasou os limites do seu país e entrou nos outros em forma de consumo. O que, trocado por miúdos, daria este belo aforismo: foi a poupança alemã que criou a nossa dívida. O problema não está em que tenhamos gasto mais do que devíamos, mas no facto de os alemães terem poupado mais do que lhes podíamos dever. Por isso, o resgate dos países do sul não é senão o resgate da poupança alemã. Quod erat demonstrandum.

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Imobilidade e avistamento

Publicado por Zé em 13/11/2011

Ao fundo Penedo Durão (Portugal). No meio, Douro Internacional (Portugal/Espanha). Em primeiro plano, foz do Rio Huebra (Espanha). 

Portugal é um lugar onde a sua formação geológica coincide com a sua construção histórica. Eu explico. Portugal é uma rocha sedimentária. Isso é bem evidente na sua distribuição orográfica, na proliferação de promontórios, fragas, falésias, alcantis, penhascos. Daí que o passado e aquela lenga-lenga dos 800 anos de história nos sejam essenciais. Porque, como numa rocha sedimentária, feita da deposição e acumulação de tempos, também em Portugal o passado não é aquilo que passou, mas aquilo que dura. E é daqui que vem a nossa decadência, de uma congénita falta de futuro.

A história tem o seu fundamento naquilo para onde caminha. À história que apenas se preocupa como o passado costuma chamar-se pré-história. E Portugal, mais do que um lugar no passado, é um lugar parado no tempo. Este estancamento foi crescendo em forma de escarpas e penedos. E estes são, precisamente, os melhores sítios para se ver o futuro, um futuro que se vê melhor ao longe do que ao perto. É desta imobilidade rochosa que se avista o longínquo. Não para onde vamos, mas o que está para vir.

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A fachada da cidade

Publicado por Zé em 11/11/2011

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A fachada das casas

Publicado por Zé em 11/11/2011

A maior parte dos edifícios tem fachadas, isto é, projecções do horizonte sobre superfícies horizontais. Há outra parte que tem contornos, e isto só acontece quando deixam de ser uma projecção e passam a ser um corpo. Por exemplo, se uma fachada é pele, então só pode ser o contorno de uma mulher.

A fachada é o cenário de um edifício, onde a janela é o seu último elemento decorativo.

A sua condição de cenário é bem evidente quando lhe projectam:

anjos

ou temperaturas

Ambos são tentativas geométricas de atribuir uma escala humana ao assunto.

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Ando a ler o “The Economist”

Publicado por Zé em 11/11/2011

Significantly, the German word for debt, “Schulden”, is the plural of “Schuld”, meaning guilt or fault. 

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Atira-te ao mar e diz que te empurraram

Publicado por Zé em 11/11/2011

Um bacano decidiu utilizar uma coisa que é o Google’s Compact Language Detector para fazer uma estatística-mundi das línguas em que se escrevem os tweets. Para a Península Ibérica a coisa saiu assim:

As suposições a tirar disto são as seguintes:

  • o lilás corresponde aos indivíduos-mancha que falam português
  • estamos, definitivamente, à esquerda do mapa
  • no denominado interior de Portugal a malta não escreve tweets
  • no denominado interior de Portugal não há malta com acesso à internet
  • não há malta, de todo, a viver no denominado interior de Portugal
  • parece, assim à primeira vista, que todos estamos prestes a cometer um suicídio colectivo
  • estamos a um passo de atravessar o Atlântico como num dia destes os judeus, guiados pelo Moisés, atravessaram o Mar Vermelho
  • o ordenamento do território português faria mais pela economia do que trabalhar meia horita e quatro feriados mais

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A arte da fuga

Publicado por Zé em 06/11/2011

Há pelo menos duas maneiras de enfrentar um problema: agarrar o touro pelos cornos ou agarrar o touro pelo rabo.

 

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Poesia, tecnologia e política

Publicado por Zé em 06/11/2011

Vivemos num mundo poético, isto é, num mundo dominado pela tecnologia.

A poesia é tecnologia na medida em que modifica o que está à nossa volta, não mudando o que está dentro de nós. Eu explico. As acções humanas dividem-se em dois grandes conceitos: a”praxis” e a “poiesis”. A primeira muda os sujeitos, a segunda muda os objectos. “Praxis” é aquilo que existe nas relações entre indivíduos. “Poiesis” é aquilo que rege a relação dos indivíduos com a natureza. Por isso, as relações humanas são práticas e as relações dos homens com a natureza são poéticas. O problema é que, com o desaparecimento da natureza, e a sua substituição pela natureza humana, as acções poéticas, isto é, tecnológicas, passaram a regular as acções entre os indivíduos. A “poiesis” foi ocupando o lugar da “praxis”. Esta substituição reflecte-se na decadência da política. Se a tecnologia, enquanto poética, se destina a transformar o mundo num lugar melhor, a ética e a política, enquanto “praxis”, têm como objectivo tornar os indivíduos melhores. A decadência da política é bem evidente no facto socialmente demonstrável de que nos estamos convertendo em indivíduos cada vez piores. Isto deve-se a que o processo de renovação da democracia, digo, da política, se esteja realizando através de meios apolíticos, ou seja, poéticos, como a economia ou a tecnologia. Assim, é normal que vivamos numa sociedade com excesso de tecnologia, isto é, de poesia, e, proporcionalmente, de falta de ética e de política.

Se os legisladores escrevem as leis, são os poetas que escrevem a história. Sendo mais rigorosos, um poema, como qualquer obra de arte, é um pedaço de história que ainda não aconteceu. Por isso, as epopeias, os gestos heróicos, as guerras, são mais belamente obras dos poetas do que dos guerreiros. Este é o poder profético da poesia: as mudanças históricas são postas em prática pelos artistas antes de que pelos políticos. A isto, a mudar o mundo, costuma chamar-se poesia.

O pessoal diz para aí que as grandes discussões, conversas e insultos são todos de cariz económico, esquecendo-se que a luta política sempre foi isso, guerra económica. Desde as revoluções liberais inglesas do século XVIII à revolução francesa. Digamos que a economia sempre foi o propósito sorrelfo da política. Daí, também, o nascimento desse enxerto que dá pelo nome de economia política. Que é um paradoxo e um equívoco, na medida em que mistura uma técnica (a economia) com uma ética (a política). Porque uma técnica é aquilo que transforma tudo em realidade. E uma ética é aquilo que impede que certas coisas se tornem realidade.

A expansão tecnológica foi tão rápida nos últimos 50 anos que a humanidade ainda não teve tempo de adaptar-se às novas condições de vida. A próxima etapa evolutiva da condição humana é, portanto, evidente e muito simples: ter mais tempo. Tempo que nos rouba a economia (dizendo que tempo é dinheiro), e que amanhã nos devolverá a política (quando suprimir semelhante taxa de cambio).

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